O melanócito no banco do réu


Para começar a escrever hoje eu preciso voltar no tempo biológico, na origem da vida (calma não vou falar do Big Bang aqui). Mas, por volta da oitava semana do período embrionário, células específicas da região da crista neural migram para região da derme (pele) e se diferenciam nos melanoblastos, e posteriormente, em melanócitos (40-50 dias)¹. Essas células são responsáveis pela produção dos grânulos de pigmento, a melanina, que é responsável pela cor da pele. Então quer dizer que uma célula, que todos nós temos, está sendo condenada?

Como a ciência bem mostra, todos nós, temos melanócitos. A diferença é a quantidade de melanina que cada um de nós temos. Pessoas albinas possuem melanócito! Mas não possuem pigmento na pele, nos pelos e a retina, exceto a íris, porque essas células não conseguem produzir a melanina já que uma enzima tirosinase está ausente, um traço gênico autossômico recessivo. Pessoas negras também possuem melanócitos, que são mais ativos durante o período embrionário. Baseando-se na fisiologia de uma célula é possível condenar, julgar, excluir e matar as pessoas?

A própria natureza já ditou como normal, mas a sociedade insiste em condenar aquilo que julga como diferente. Parece completamente absurdo julgar uma célula, não é? E condenar quem tem a produção maior ou menor de melanina por essas células? É complemente surreal, não é? Mas é por isso que alguns seres humanos distinguem, hierarquizam e dominam outros seres humanos. Essas crenças limitantes hipócritas refutam a veracidade biológica da nossa própria espécie. Não é a produção de melanina que nos distingue, é o nosso caráter, nossa compaixão, nossa capacidade de distinguir o certo do errado.

Nesses últimos dias fomos lembrados que desde muito tempo o melanócito está no banco dos réus por produzir melanina. Fomos lembrados que as atrocidades do ser humano podem ser tão devastadoras como a de um vírus, que nem ser vivo é! É preciso aprender a ser humano e compreender de que somos iguais. Baseado nos altos, o melanócito pode ser inocentado. E você caro leitor?

Referência

¹Moore, K.L. Embriologia Clínica. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008 p. 449.

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