Ciência (anti)empática

 


Nesses últimos dias tenho observado e conversado com diferentes colegas pesquisadores mundo a fora, e ao que parece, a empatia está na lista vermelha de espécies em extinção.  Escutar e se colocar (verdadeiramente) no lugar do outro é uma utopia escancarada nas redes sociais, mas que na prática refutam o óbvio (não dogmático) científico. Será que a sociedade tem empatia pelo cientista/pesquisador? Será que nossa sociedade está entendendo e se coloca no lugar dos pesquisadores?

A pandemia do vírus Sars-Cov-2 está ai para servir de bancada para todos, inclusive para própria sociedade. Ao ser descoberto pelo médico oftamologista Li Wenliang da cidade de Wuhan em dezembro de 2019, a sociedade o silenciou (e infelizmente isso custou sua própria vida). Logo após, ser considerado um novo vírus com alta taxa de contagio, a sociedade decretou vida normal inclusive dos países com grande fluxo turístico, como a Itália (não preciso reavivar a memória das imagens). Ao chegar ao Brasil em 48 horas a equipe da pesquisadora Ester Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical (IMT) da USP junto com sua aluna Jaqueline Goes de Jesus, pós-doutoranda na Faculdade de Medicina da USP e bolsista da FAPESP (isso mesmo aluna de pós-graduação) conseguiram seqüenciar o genoma viral (Disponível Aqui). Você entendeu o que acabou de ler para si mesmo?

O texto está inundado de termos que são abordados na educação básica (e também no ensino superior) e foi preciso uma Pandemia para mostrar o propósito de estudá-los. Explico melhor. A geopolítica (China) e suas conseqüências para outros países do mundo (Você sabe onde fica a Itália? Vou dar uma dica: Império Romano). A física das freqüências, que indica o número de ocorrências (pessoas) de um evento (contágios, pessoas positivas para o vírus, mutações do vírus e pessoas que foram a óbitos) em um determinado intervalo de tempo (horas, 2 dias, 7 dias, 1 mês). A genética e os vírus (vírus de RNA ou DNA?) e a importância do genoma viral para compreender sua forma de funcionamento e assim trabalhar em cima de fármacos e vacinas. Se você leu esse parágrafo e ainda não entendeu te convido a fazer uma busca rápida na internet, nos livros dos seus filhos, nos artigos científicos (e não nas redes sociais, fast food da informação). Enfim...seja um curioso!

A curiosidade é a essência do pesquisador, do cientista. Muitos de vocês não sabem que a força de trabalho para as pesquisas em nosso país está nas universidades (principalmente as públicas!). Além disso, esse trabalho é desempenhado pelas divinas mãos dos alunos(as) de pós-graduação. Você sabia que o pós-doutoramento não confere título? É uma especialização na área e chamamos esses alunos(as) de pesquisadores. Não se faz pesquisa da noite para o dia, em uma Live a Jaqueline Goes revelou que o grupo estuda o método do sequenciamento há 4 anos e que esse método usado para Zika foi utilizado para o Sars-Cov-2 (Perfil da Rafaela Ribeiro @cienciasou). Eu sei que a maioria de vocês prefere ver a live sertaneja (nada contra, eu até gosto!) que chega a milhões de visualizações, mas quantos de vocês escutaram ao menos uma live de pesquisadores nessa quarentena?

Eu não vou julgar a sua resposta, mas como é possível que as pessoas não queiram escutar e entender uma pesquisadora que seqüenciou um genoma viral em 48 horas simultaneamente a pandemia? E essa resposta é a que me preocupa. A sociedade é um espelho das ações dos que educam (pais, professores da educação básica, professores do ensino superior, amigos, etc.) se nós enquanto educadores não escutamos nossos alunos e não ensinamos com propósito (matemática, ciências, história, geografia, etc.) não podemos esperar que eles tenham empatia pelo cientistas/pesquisadores. Contudo, podemos aprender com o erro e mudar nossas estratégias de ensino dentro e fora de sala de aula (casa), começando pelo desenvolvimento dessa competência que se chama empatia.

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