Ciência antifashionista

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Ciência antifashionista

A ciência é antifashionista por motivos óbvios {biossegurança} e outros nem tão óbvios assim {man power, para simplificar}. Apesar da palavra ser um substantivo feminino, a ciência, o termo laboratório é literalmente masculino. Não faz muito tempo eu li uma matéria da Nature {tentei encontra-la, mas sem sucesso} em que uma pesquisadora fala sobre sua experiência na mudança do visual para ir ao laboratório. Ela arrumou os cabelos, passou um batom, colocou uma roupa mais fashion e foi para o trabalho. Nesse dia, poucos ou quase nenhum dos colegas foram até ela retirar dúvidas ou conversar sobre novos papers. Ela se sentiu tão frustrada que no dia seguinte voltou a usar as velhas roupas, os óculos e os cabelos amarrados e tudo voltou a ser como era antes, “ao normal”.

Você já passou por esse tipo de situação? Isso é mais comum do que imaginamos, e acontece em vários laboratórios e de diferentes áreas. Uma amiga brasileira que está na França passa por isso todos os dias desde o mestrado. É uma ciência antifashionista para não dizer estereotipada. Por que não posso me arrumar de forma elegante para ir ao trabalho? Salvo os laboratórios em que o uso de maquiagem não é permitido, por questões de biossegurança, você pode sim e deve utilizar roupas e acessórios sem que isso seja um pré-requisito intelectual.

Eu, particularmente, ainda não li um paper que utilizasse o fator maquiagem como uma variável qualitativa do intelecto de uma pessoa. Se alguém achar, por favor compartilhe esse absurdo. Isso acontece bastante na área tecnológica e muitas mulheres passam a vestir-se de uma forma que a enquadre naquele perfil acadêmico, oi? Uma amiga na área da física só usa camisa social e calça, com um tênis ou salto, para ir ao laboratório e utilizou esse look para uma apresentação em um congresso. Quando vi sugeri usar um vestido e tal, uma peça mais feminina. Ela preferiu utilizar do mesmo look, e ainda agregou o óculos de grau {detalhe importante}. A apresentação foi um sucesso, ela é extremamente competente. Mas, por que não usar um vestido? Essa pergunta me faço até hoje. E as colegas do laboratório facilmente você identificava, afinal todas usam o mesmo padrão de look. Antifashionista? Não diria isso, mas apenas estereótipo da ciência.

Eu também já fui vítima da inquisição ciência antifashionista por usar um scarpin salto de 5 cm. Isso mesmo, em um laboratório de risco baixíssimo, mas enfim é biossegurança e isso não se discute. Então, a solução mais óbvia que eu achei: comprei crocs. Chegava no laboratório como meus lindos saltos e os substituía pelos crocs durante o período que estivesse no lab. Na saída estava com meus lindos high shoes.


Ser mulher na ciência é ter coragem de enfrentar as mais diversas formas de sexíssimo e combate-las. Ser feminina não deve e, e nem será, uma fator limitante da nossa capacidade intelectual, mas é uma parte da nossa identidade como pesquisadora. Não permita que mudem seu modo de ser, ou sua vontade de ser, afinal moda também é ciência. Además quer ver mais química dos que as que existem nos produtos de cosméticos?

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